CRÔNICAS DESTAQUES — 27 julho 2010

Recebeu e leu uma crônica de um velho amigo que entre outras coisas dizia que “havia se formado em solidão”. Nela o amigo falava de tempos em que se conversavam mais, não só no âmbito das famílias, mas entre as […]

* Roberto Colichio Gabarra

Recebeu e leu uma crônica de um velho amigo que entre outras coisas dizia que “havia se formado em solidão”. Nela o amigo falava de tempos em que se conversavam mais, não só no âmbito das famílias, mas entre as famílias. As pessoas se  visitavam, se reuniam na igreja, nos clubes e até nas ruas, dizia sua crônica. Que a televisão afastou as pessoas e os hábitos de se conversar. Induzido pela leitura da crônica e tomado pelo saudosismo ele começou recordando sua infância e juventude. Lembrou de uma época que não havia vídeo-game, não existia computador, poucos tinham televisão. Ligações interurbanas, então, era uma dificuldade. Tínhamos que entrar em contato com uma central telefônica que se comunicava com a outra cidade, esta com a pessoa chamada e se houvesse pouco “transito telefônico”,  em algumas poucas horas conseguiríamos nosso intento. Nas cidades do interior e nos bairros das grandes cidades, à tardinha, as pessoas colocavam cadeiras nas ruas e se falavam. Havia sempre uma cadeira vazia em cada grupo para os amigos que passavam. Apesar do trabalho duro, o lazer era muito valorizado e  lazeres eram relações pessoais,  prática de esportes, visitas a zoológicos e freqüência em clubes. Mesmo nos clubes, praticavam-se mais esportes coletivos. E a vida rolava solta, preguiçosa, lúdica, social. E, sobrevivemos a estes tempos pobres em tecnologia e comunicação. Hoje temos toda comunicação possível:  telefone fixo, livre, celular, videofone, computadores. Podemos falar de um lado a outro do mundo por todas as vias. Até mesmo vendo pessoas distantes. Áudio e vídeo. Tudo a nosso dispor. Mas nos comunicamos? Vivemos presos em nossas casas por conta da violência urbana. Quando saímos, saímos de carro, com insulfilme e andamos rapidamente. Não podemos nos expor em virtude da violência nem podemos perder tempo. A comunicação passou a ser cara. Qualquer ligação telefônica é paga.

- Não, você pode ligar de “Viva pra Viva”, sem pagar nada.

- Sem pagar nada? E o plano que você está pagando para usar este privilégio?

- Mas você pode falar pelo computador. No “Skyfe”, por exemplo. Não paga nada.

- Paga o “Skyfe”. Paga a banda larga. Sempre paga. Você pode até não pagar, mas alguém paga.

Mas, voltando ao assunto. A verdade é que com todo avanço tecnológico para nos colocar em comunicação mais fácil, a comunicação ficou mais cara e mais difícil! Para mantermos atualizados com toda essa tecnologia, alem dos gastos, gastamos tempo. Para mantermos um padrão de vida que nos dê algum conforto (Que contra senso!), temos que trabalhar o dobro, estudar mais, gastarmos mais energia e ficamos estressados. Para tirarmos o estresse, gastamos mais energia (malhamos) e dinheiro. Para tal temos que trabalhar mais. E aí vira bola de neve. Ou vem a roda – viva, como cantou o Chico, e leva o destino pra lá. Ou então (Ah! Temos alternativa!), nos distraímos com jogos do computador! Ou ainda passeamos pela Internet! Ou, vamos dormir mais cedo (!!!), pensou ele, se lembrou da crônica:

- Tem razão meu amigo cronista: Nós somos formados em Solidão!

* Roberto Colichio Gabarra, é médico e professor na UNESP

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(2) Readers Comments

  1. Excelentes as crônicas do Prof. Roberto Gabarra! Adorei o estilo, as palavras e principalmente o conteúdo, recheado de mensagens de cidadania e solidariedade. Se o mundo fosse todo assim com a pureza do cérebro do notável neurocirurgião ele seria bem melhor. Você quer melhorar o mundo? Então melhore você primeiro! É a mensagem das ótimas crônicas do professor !! José Carlos F. Brito Neurocirurgião da Faculdade de Medicina de Jundiaí.

  2. Bom dia!

    Gostaria de saber se vc tem algum parentesco com a senhora Sebastiana Soares Dutra? A pergunta é porque o seu nome é o mesmo nome do marido dela, e estamos procurando-a.