CRÔNICAS DESTAQUES — 10 agosto 2010

Voltava de viagem a Belo Horizonte após fazer inspeção de hospitais pela minha associação de classe. Como teria que dar plantão no domingo voltei na sexta à noite para São Paulo. Sábado, pela manhã fui dar uma volta na feira […]

Roberto Colichio Gabarra

Voltava de viagem a Belo Horizonte após fazer inspeção de hospitais pela minha associação de classe. Como teria que dar plantão no domingo voltei na sexta à noite para São Paulo. Sábado, pela manhã fui dar uma volta na feira de antiguidades da Praça Benedito Calixto. É pertinho do meu apartamento e como sou aficcionado por antiguidades, sempre passo por lá. É sempre muito pitoresco: antiquários, hippies, artesãos, artistas, músicos, homosexuais e outras minorias ali se reúnem e  mostram sua arte, seus desejos, seus objetos. É um espaço democrático e onde sensibilidades se encontram sem medo de confrontações, comparações, discriminações e restrições.

Em um ponto da praça, havia um violinista que tocava sem nenhuma platéia. Músicas lindas, em sua maioria clássicos do passado, saiam das cordas e inundavam a praça. Mas, parecia que ninguém ouvia. Fiquei uns 15 minutos e tive o prazer que me deliciar com diversas delas. Sem que ele percebesse joguei uma nota de  10, bem embrulhadinha na caixa do violino aberta à sua frente e que continha apenas algumas moedas de 5 e 10 centavos. Talvez ele mesmo as pusesse ali para atrais a atenção de todos. Mas não havia todos! Todos conversavam, comiam, bebiam, compravam… Acho que minha colaboração foi muito pequena pela qualidade da performance, mas foi o que dispunha. Mesmo assim, me senti mais gente, mais inteligente, mais sensível. Parecia que apenas eu tinha o privilégio de ouvir. Neste momento pareceu que só eu tinha sensibilidade e consideração. Não queria me afastar dali. Estava parado quase ao lado dele e ele nem me via, mantinha-se atento à partitura com se estivesse sozinho na praça.

Como havia combinado com meu filho,  devia voltar ao apartamento.

Esperei que o músico olhasse e fiz um gesto com a mão direita mostrando na seqüência, meu coração, minha boca e minha cabeça e apontei para ele, como um cumprimento árabe lhe oferecendo meu coração, minhas palavras e meus pensamentos.

Ele parou momentaneamente de tocar, agradeceu, segurou o arco, com a mesma mão que segurava o violino, enfiou a outra mão no bolso e me ofereceu uma pequena tira de papel. Incontinente continuou a tocar. Olhei para o papel sem ler, me despedi mais uma vez e fui embora. No caminho abri o papel e li:

“Tudo cede à continuidade de um desejo enérgico:

Todo sonho acaba por encontrar uma forma!”

Fiquei pensando no conteúdo e lembrei de meus desejos e sonhos. Um desejo enérgico! Vou continuar tentando, vou continuar desejando. Vou continuar sonhando. Quem sabe o velho violinista tenha razão e meus sonhos tomem formas. Quem sabe os sonhos se concretizem. Quem sabe as ilusões se materializem! Vou continuar sonhando acordado, vou continuar vivendo mais intensamente. Obrigado violinista, músico anônimo, na verdade, quem fala com música, fala com Deus. Vamos seguir seus conselhos.

Publicado no Diario da Serra, Botucatu.

* Roberto C. Gabarra

é médico, neurocirurgião,  professor da

Faculdade de Medicina de Botucatu – UNESP

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