As constantes mazelas que escandalizam o mercado dos cuidados às doenças em nosso país possuem, por certo, causas quase nunca ventiladas, muito menos debatidas, por encerrarem verdades pouco palatáveis e jamais digeríveis em delicados organismos como os humanos. O espaço midiático, sempre interessado em bons escândalos que sapientemente muito rendem em audiências, leitores e anunciantes ou interessados em geral, só faz alardear fraudes, desatenções, ausência de vagas, congestionamento de corredores, etc. Isto rende boa atenção na imprensa amarronzada, transforma os esculápios nas “Genis” do momento e garante a felicidade dos que exploram o mercado “da saúde” suplementar nesta Pindorama.
Nada se debate, seriamente, da profana, indiscriminada e iconoclasta proliferação de escolas médicas, quer públicas ou privadas, nas “uni isto ou uni aquilo”, multiplicação esta, acionada pelas vaidades de se ter ou pseudo formar “doutores”- a supostamente agregar valor a seus sobrenomes , familiares e confrades, adicionado às vultosas anuidades cobradas, oferecendo lucro certo aos empresários envolvidos neste verdadeiro estelionato acadêmico de se oferecer graduação sem verdadeiramente formar a ninguém nas artes hipocráticas. O aumento indecente destas supostas escolas de Medicina, de paupérrimos corpos docentes, não possuindo hospitais escola próprios ou apropriados, inunda já o mercado da “saúde “ ou melhor, dos cuidados às doenças, de profissionais algo mambembes, que para terem ocupação, se oferecem por pouco a exercerem donde quase nada de infraestrutura existe. Há, certamente quem os contrate, pois economia se faz por certo, já que preocupação com qualidade, nem donos de convênios, muito menos os modernosos administradores de hospitais, têm. E, afinal, quando dá problema, oras, a responsabilidade é sempre do facultativo, pois a este compete não exercer donde condições inexistam, ou evitar o mau resultado, sempre, pois morrer , mesmo de moléstia incurável, não se admite nos dias de hoje, não é mesmo?
Deste “vaudeville” formador de pretensos esculápios, pouca análise de causas e efeitos se faz ou fala. Em verdade, o pouco que disto se fal, sempre em tom alarmista, é para erguer-se a bandeira dos “exames de Ordem”, que por mim poderiam ser chamados “exames decorrentes da Desordem”. Este remédio pretensamente separaria os bem dos mal graduados, através de provas teóricas e teórico práticas. Não sei (acho que não) se tais avaliações, por melhor elaboradas que fossem, substituiriam com eficácia a boa graduação e observação dos acadêmicos por seis anos a fio, em núcleos universitários realmente idôneos. Mas sei de outra coisa: estes exames, como já ocorre com os exames de acesso aos programas de residência médica, reforçariam um mercado suplementar de cursinhos preparatórios, habilmente explorado a preço de ouro por docentes frustrados em suas carreiras médicas e(ou) universitárias. Na outra extremidade, silêncio sobre o que fazer com os que nestes exames fossem mal sucedidos. Passariam talvez à condição de comentaristas de “saúde” nas rádios, ou talvez apresentadores de “reality shows” envolvendo questões da “saúde”? Quiçá poderiam ser aproveitados na qualidade de maus auditores de procedimentos solicitados aos convênios, já que estes estão pouco interessados na verdadeira auditoria, mas sim no regular obstaculamento de solicitações muitas vezes legítimas, feitas por bons médicos a seus pacientes, ligados aos tais convênios.
Pois é. A celeuma é realmente complexa, para se dizer o mínimo. Este abrir de escolas e escolinhas pretensamente formadoras de médicos já dá o que falar agora, pois imagine-se em futuro breve. Hoje já há um descompasso enorme entre os que se formam médicos e os que adentram nos programas de Residência Médica, meio consagrado pelos norte-americanos a especializar e dar adestramento e vivência aos recém egressos das faculdades médicas. Não há programas de especialização reconhecidos para todos, e os que não fazem especializações adequadas, sobrevivem como podem, pode-se imaginar as dificuldades e suas consequências. Como o funil é de saída estreita, vicejam os cursinhos preparatórios, de mensalidades polpudas, onde se encontram a ministrar suas “aulas” os preceptores, assistentes, docentes e até titulares das vetustas casas de ensino médico. Que belo papel, hem? Muitos, nas instituições de origem não se prestam às prédicas aos graduandos, preferindo dedicar-se aos bolsistas de pós-graduação e à assim chamada “política” universitária. Mas aos preparatórios às Residências, estão prontos a darem o melhor de si e nunca por benemerência, pois pois…Isto quando não se metem em escândalos envolvendo a utilização de bens oficiais como laboratórios , bancos de dados ou de questões nestas atividades , digamos, “cursilhistas”.
Ora, isto é muito complexo, difícil mesmo de se explicar ao cidadão em geral, muito mais sequioso de uma boa fofoca, ou um belo escândalo de troca de pacientes; de órgãos; das filas; das mortes, cabendo por facilidade achar logo um coitado esculápio qualquer, vítima de cinco séculos de malversação de verbas destinadas à saúde pública nestas plagas, e pregar-lhe as culpas. Em adição, como explanar ao patrício comum, que aos convênios e redes de hospitais interessa sim, achincalhar com os médicos, tirando-lhes a força moral que sempre tiveram em sociedade, por respeito e tradição? Claro, que ao enfraquecer a moral médica, facilita torná-los meros técnicos em Medicina, proletarizando-os de vez aos desígnios de um capitalismo para lá de selvagem tal sua voracidade de lucros. Sabe-se e saibam que esta intermediação aos cuidados à saúde perdida, é um dos melhores negócios de todos os tempos, pois a margem de lucro operacional almejada é brutal. Ora, onde há muitos dinheiros, medram os representantes eleitos após campanhas muito caras que sempre necessitam provimentos. Assim, a bancada que representa interesses de convênios, operadoras, hospitais e cooperativas é muito numerosa, e dali espere-se de tudo, menos o bom ordenamento dos serviços médicos em geral. Pois até as prerrogativas do ato médico pensou-se em estender a outras profissões! É a piada feita mesmo.
Oh, gentes, como é difícil suportar a todo este “Febeapá” que nos assola! O finado Stanislaw Ponte Preta teria material inesgotável para suas crônicas e livros.
Bem, prossigamos. Como muitos se formam e poucos são os programas de residências ou especializações, já há o jeitinho tropical de com isto lidar. Qualquer serviço médico mais ou menos, já se prontifica a oferecer tais oportunidades, pois afinal, em terra de cegos, quem tem um pouquinho de visão vira rei, não é mesmo? Assim, muitos locais, de tão famélica expressão quanto as faculdades uni-isto, uni-aquilo, se credenciam, com “ carteiradas” políticas a criarem especialistas. Com isto, além de oferecer um tapa-sol meia boca à excelsa Comissão Nacional de Residência Médica e às doutas Sociedades de Especialidades, adquirem mão de obra barata ou gratuita, além de muito dedicada, a tocar suas rotinas….. E assim, “La nave va”, tipicamente Fellini, por assim dizer.
Como se diz d´antanho, “pau que nasce torto, é difícil de endireitar”. Mas se tenta – entortando-o mais ainda. A mais nova “ideia” luminar de nossos pretensos normatizadores é a de premiar os recém egressos das escolas médicas que se prontificarem a participar por dois anos de algum programa da assim chamada “saúde da família” , com bônus de 20% nos exames de acesso aos programas de Residência Médica. Dentro da crescente política bonificadora do Ministério da Educação destes novos tempos (bônus disto, daquilo, daquilo outro, e mais do que se possa imaginar), o jeitinho funcionaria na prática, em verdade, assim: terminado seu tempo acadêmico na famélica instituição de ensino, o noviço bacharel em ciências médicas, adentraria “voluntariamente” num desses programas de “saúde da família”, e ainda recebendo respeitáveis proventos do Estado , desfrutaria dois anos de agradável pousada em algum rincão desta bela Pindorama. Lá nada resolveria em matéria de saúde ou doença, pois nenhuma prática teria, afora não haver infraestrutura alguma. Seria o mais genuíno doutor ao-ao (ou au-au). Explico: um mero encaminhador ao colega isto, ao colega aquilo, ao hospital isto, ou aquilo. Decorridos dois anos dessas férias remuneradas pelo Estado, bolsos cheios e sucesso feito com a juventude local, retornaria “bonificado” às metrópoles a surrupiar sem mérito, as raras vagas nos programas de acesso às especializações…..Brilhante! Típico! Bem de acordo com nossa história cartorial de benesses ardilosamente distribuídas com apoiamento político. O mais triste é o constatar que os cossignatários deste pesadelo traem de uma tacada só dois antecedentes seus: os programas de saúde da família, pois sua concepção não tem nada disto de enfiar um recém-formado por meros dois anos nas comunidades, antes pelo contrário, o objetivo seria fixar um médico experiente para toda vida numa comunidade, e, traem cuspindo, água donde sempre beberam, cresceram e se beneficiaram, qual seja, a boa faculdade de Medicina.
E ainda falam mal do Calabar…..Mas como o humano normal poderia resistir às vaidades, agrados e oportunidades de se frequentar os gabinetes de nossa bela “Capital da Esperança”?
Tudo isto se deve a uma fatalidade.A uma fatalidade histórica. À fatalidade histórica dos algarismos.
Claro!É tudo culpa dos números, compadres.Tem gente demais; médicos demais; faculdades demais; especialistas demais, demasiadamente mal distribuídos e demasiadamente incompletamente formados. A coisa é malthusiana.Thomas Malthus já nos alertava desde o início do século XIX, dos riscos dos desequilíbrios demográficos em quaisquer populações de quaisquer espécies.A turma se mata!Pior, se devora!É o que se assiste, sem tirar nem pôr.
A Fatalidade histórica dos algarismos.
Às fatalidades podemos nos render, aguardando nosso destino, inexoravelmente.Mas podemos reverte-las, usando bem a qualificação “sapiens” conferida ainda injustamente a nossa espécie.Podemos melhorar, como pessoas e como sociedade.Podemos afastar as negociatas, os jeitinhos e a mandracaria generalizada.Devemos enfrentar sem medo os mal-feitos e os malfeitores. A boa maioria inerte deve deixar de sê-lo, e mostrar sua boa formação e seu bom coração, derrotando os oportunistas, os carreiristas, os egoístas e os “ishpertos”.
À audácia, a fortuna ajuda!
A FATALIDADE HISTÓRICA DOS ALGARISMOS – Frase que ouvi do Prof.Paulo Brossard (ex-ministro do STF) , citando seu Capitão instrutor do CPOR.
Sergio Listik – Médico.Especialista em Neurocirurgia.







