Erro Diagnóstico?
A complexidade da Neurocirurgia como especialidade é um fato.Logicamente aqueles que desejam exercê-la precisam ser submetidos a um treinamento adequado, nos moldes de Residência Médica, em locais que detenham honestamente a infraestrutura de ensino e assistência médica próprias..O que se exige durante este treinamento, está bem definido pelas Comissões de Residência Médica do Ministério da Educação e da Sociedade de especialidade, quer quanto ao corpo docente, duração do treinamento, programa, número de atendimentos e número de cirurgias por patologia.Há definição de avaliações por provas periódicas.
Há problemas quanto a isto, todos sabemos.Mas como? Não está tudo no papel, como deve ser, como se exige? Bem, para quem passa nas provas, pretende-se tolerar que seu centro de treinamento não detenha condições plenas, não cubra na atividade prática tudo o que se espera para a boa formação do neurocirurgião.
Convenhamos que existe uma certa liberalidade nas inspeções das comissões de residência médica.Se houvesse um rigor, digamos, prussiano, talvez os profissionais que lograssem finalizar o treinamento, fossem em número menor, advindos de menos centros de residência, porém de excelência, e com melhor e mais amplo preparo na vastidão que se tornou a Neurocirurgia moderna.
Mas os colegas passaram nos exames!Tenho profundas dúvidas se provas e exames mensuram o verdadeiro preparo do especialista.Onde ficam as posturas, as condutas práticas, a propriedade no ambiente cirúrgico, etc, etc.?
Lançado no mercado de trabalho, esse jovem profissional depara-se com dificuldades peculiares. Geralmente não deseja sair da grande cidade, pois foi lá que treinou e tem seus vínculos de coleguismo, senão familiares mesmo.Se desejar mesmo ir para uma região mais carente de neurocirurgiões, dificilmente encontrará uma que lhe ofereça estrutura hospitalar mínima para a prática neurocirúrgica. A escolha fica entre o mais autêntico “Far West” e a mais perfeita “Selva de Pedra”. Na Selva de Pedra, trabalhará por pouco, para muitos.Correrá de plantão em plantão, dormirá um mínimo, operará apenas determinadas patologias de emergência, mesmo tendo “passado nas provas”.Se for feliz, alguém o convidará para participar de um serviço mais antigo na especialidade, para manter a destreza cirúrgica, mas perceberá pela tabela dos convênios, que tem quase a sua idade (do médico), embora a Neurocirurgia tenha evoluído anos-luz desde a sua implantação.Perceberá pouquinho, descontados os impostos federais, aliás, muitos e recentemente majorados.Mas ficará feliz, pois manteve a mão cirúrgica treinada.
Mas infelicidades nunca são demais e, novos argumentos nativos do alto da pirâmide da comunidade neurocirúrgica, lhe são noticiados.É preciso estar atualizado, a especialidade se moderniza!Diz-se que maioria dos colegas deixa de estudar, de ir aos congressos, de fazer provas (será verdade?) Diz-se ser imprescindível fiscalizar os especialistas.
Propõe-se a revalidação periódica do título de especialista.
Soa lógica a propositura. Os especialistas precisam se manter na vanguarda do conhecimento de suas áreas específicas. O conhecimento médico se modifica rapidamente, quase exponencialmente.É mister ler, estudar, freqüentar cursos, etc. Tal não se discute, é inquestionável.
Mas honestamente, será que não se deseja solucionar os desvios do mercado de trabalho mediante essa revalidação?Será que infelizes em propor o reparo nos alicerces da formação primária dos especialistas (a qual feriria interesses complexos), pretenda-se usar uma peneira mais tardia?
Aqueles colegas melhor aquinhoados financeiramente, certamente dispõem de melhores meios para se reciclarem, participando de cursos, assinando revistas, afastando-se do trabalho, separando horas para estudo.Assim, estariam mais favorecidos numa eventual revalidação por provas ou mesmo mediante créditos curriculares a serem apresentados periodicamente.
É preciso lembrar, honestamente, que estar melhor financeiramente, não atesta capacidade profissional a ninguém, caracterizando tão somente, uma situação momentânea, mutável ao sabor dos acontecimentos históricos.Portanto as condições para provimento de eventual revalidação não devem abraçar ou consagrar dificuldades materiais.Antes, pelo contrário, evitá-las.
A comprovação do correto e contínuo exercício profissional, atestado pelos locais de atendimento, cirurgias feitas e pacientes orientados, é um dado a ser respeitado, se apresentado pelo especialista, periodicamente.
O comparecimento a cursos e congressos é muito importante.Mas o acesso a tais eventos deve ser facilitado, quer reduzindo seus custos, que estão elevados, quer oferecendo-os em todos os Estados da Federação, freqüentemente, pois muitos colegas não têm possibilidade de se afastarem por períodos longos, dos seus locais de trabalho.E mais, pensando-se no sistema de créditos, os cursos melhor creditados deveriam ser aqueles com melhor conteúdo didático, e não por serem ministrados por esta ou aquela instituição.Aliás, seria mais correto que toda a programação didática oferecida pela Sociedade da especialidade, ou por esta creditada, fosse pontuada por um painel altamente representativo de experientes especialistas, realmente embrenhados na realidade da média dos neurocirurgiões patrícios.
Creio sinceramente que a proposta de revalidação periódica do título na especialidade deva passar por grave meditação.
Se seu mister for o de aplainar distorções no mercado de trabalho, ou do número de profissionais, deve ser antes precedida de amplo escrutínio dos atuais centros de treinamento, encerrando sumariamente os que cabalmente constituem-se em centros de engodo, e agrupando aos demais, complementando-os mutuamente quanto à estrutura.Não se deve passar ao largo, temerosamente, das vetustas instituições que para maior funcionalidade interna, multiplicaram suas vagas de Residência em Neurocirurgia.
Se por outro lado, seu desiderato for o de estimular, controlando, o contínuo treinamento na especialidade, que obviamente progride em materiais, métodos e condutas, tal deve ser feito da maneira mais transparente, pedagógica e compreensiva que se possa imaginar.Cursos devem ser oferecidos pela própria sociedade ou suas regionais, periodicamente, em todas as regiões do País.Os custos precisam ser acessíveis, a todos, universalmente.Os programas demandam ser didáticos, pedagógicos, variáveis e, sobretudo de interesse prático no dia a dia da média da atividade neurocirúrgica entre nós.
A comprovação do exercício da especialidade, mediante relação de atendimentos e cirurgias, ou declarações expedidas por hospitais públicos, e privados, centros formadores ou não, devem ser levadas em conta, após análise crítica.
Todo este conjunto de idéias colocadas em prática evitará um erro diagnóstico e conseqüente equívoco de conduta, na proposta de revalidação do título da especialidade.
Dr. Sérgio Listik






