Fazia um calor infernal na terra dos bons ares. Embora fevereiro, as águas de março abençoavam a cidade com chuvas repentinas com trovões e muita ventania. A bem da verdade, nem sempre as chuvas eram bem vindas. Vez por outra fazia grandes estragos. Vez por outra parecia castigo, como que lavando a sujeira da humanidade.
Era como um aviso para que o bicho homem cuide mais do seu planeta. Mas, alheio a tudo isto, pensando mais no trabalho e nas contas a pagar, ele descia uma daquelas ladeiras que vai da Dom Lúcio à Amando, quase que na área central da cidade. Sol intenso contrastado por nuvens negras invadindo o espaço. Transito lento para atravessar as ruas lotadas do final da tarde. Dois carros à sua frente, um deles tentava estacionar à esquerda único lado permitido. Ao terminar a manobra, a motorista desceu rápido, atravessou a rua e entrou em um pequeno portão, quase que simultaneamente à chuva que despencou forte e fria.
O transito continuou parado e a chuva forte quando a passageira desceu do carro. Era jovem, magra e bonita. Em plena chuva com um vestido bem leve, sem mangas e com generoso decote atrás. Ao sair, fechou rapidamente a porta e ao se virar para atravessar a rua, teve seu vestido preso na porta e a roupa rasgada. Já com parte do corpo descoberto, tentou abrir a porta novamente sem sucesso. Olhou para os lados, observou os carros ainda parados, neste momento até indiferentes ao trânsito, a chuva caindo, deixou restos das vestes na porta e atravessou a rua, altaneira, de calcinha e salto alto. Como uma diva, levantou o queixo, empinou o busto nu e desfilou pelo asfalto molhado mostrando o belo corpo e uma postura impecável. Mais belo que o corpo foi a lição de dignidade e de coragem.
Dignidade e coragem de mulher! Entrou na casa, fechou o pequeno portão de grade e através dele, olhou com orgulho de vencedora para os boquiabertos e estupefatos motoristas. Ouviram-se buzinas e percebeu-se que muitos até aplaudiram. Ele de repente percebeu que estava atrasando o transito. Ainda antes de voltar seus pensamentos para o seu trabalho e suas contas a pagar, agradeceu à natureza pela chuva, pela beleza e pelo que a vida nos ensina e proporciona!
* Roberto Colichio Gabarra, é médico e professor na UNESP







