Exercício Profissional

Sylvio da Cunha Martins*

Depara-se hoje, ao iniciar-se o milênio, com um mundo globalizado, em que a história flui rápida, num ritmo acelerado que nos atinge a todos. Na  prática neurocirúrgica, grandes centros parecem atuar sobrecarregados, e outros serviços, mesmo os mais afastados, começam a inserir-se num contexto que os coloca numa perspectiva de ação mais intensa e abrangente do que jamais fora até então. Muitos serviços neurocirúrgicos do interior atuam dessa maneira na alta-complexidade do SUS, por exemplo. Precisam dispor de uma gama de recursos que permitam que se realizem procedimentos além do que pejorativamente se dizia nos tempos antigos: “os três Hs da neurocirurgia” (hematoma, hérnia de disco, hidrocefalia). Essa ordem das coisas veio surgindo, sobretudo nesses últimos anos, trazendo novos problemas que compreendem inclusive a estruturação dos meios em que se trabalha e sua manutenção. Além disso, é preciso permitir acesso abrangente da população carente a esses recursos, que praticamente só tem ocorrido nas ações de urgência e emergência. A maior parte do universo de nossos pacientes são pessoas carentes que não têm quaisquer planos de saúde suplementar. Hoje, com certeza, esses necessitados engrossam filas dos ambulatórios, das universidades ou dos poucos serviços que fazem esse atendimento. Essas pessoas vivem longos períodos de sofrimento e de exclusão social, a mercê da sorte que a evolução natural de suas enfermidades possa lhes reservar, enquanto aguardam por seus tratamentos. Enquanto isso alguns serviços credenciados para a alta-complexidade do SUS têm menor atividade do que poderiam oferecer. Atuam num modelo de atendimento em geral desarticulado para acolher pacientes referenciados sem hierarquização do sistema que permita o pronto encaminhamento para serviços de referência, casos de maior complexidade. Dependem, além do mais, da forma como é conduzida a política de saúde do município em que estão implantados, tendo suas ações limitadas, por exemplo, pelo teto municipal. É talvez esse um motivo porque jovens neurocirurgiões não encontrem espaços para exercerem plenamente as capacidades adquiridas na extensa formação de suas residências médicas. Ocupam-se atendendo em diversos prontos-socorros, tornando-se essa sua principal atividade na profissão. Ali estarão desviados de melhores trajetórias, desperdiçando talentos que se desenvolveriam caso pudessem se agregar a serviços montados para o exercício pleno da especialidade.  É assim imprescindível que surja uma nova política de saúde, que elabore as bases de atendimento das morbidades neurológicas como um todo. Tal fato parece estar surgindo numa nova portaria do Ministério da Saúde, que deve a meu ver ser objeto maior da atenção de todos nós, seja para sua implementação, seja para o credenciamento amplo dos serviços engajados na intenção desse atendimento. O neurocirurgião, além do mais, nunca esteve tão envolvido em adaptar-se às novas tecnologias que surgem a cada dia e aos custos que geram.  Dele é cobrada constante renovação de sua educação e formação técnica.  Nossas sociedades de classe devem estar atentas ao grande debate que isso desencadeia. Não se pode ignorar que a manutenção do tônus do conhecimento em áreas como a nossa é de custo elevado. O benefício da educação continuada deve ser abrangente e estar ao alcance de todos.  Precisamos a toda hora lidar com interferências de intermediários sobre os serviços que prestamos: operadoras, seguradoras, auditorias, firmas de materiais protéticos, ou seja: a indústria da saúde, onde somos, em última instância, aqueles que menos usufruem. Tornamo-nos às vezes, infelizmente, operários de um sistema onde parecemos perder paulatinamente parte da autonomia de nossa condição liberal. Nossos rendimentos caem a cada ano levando alguns de nós à perda do estímulo e da competência para continuar as atividades dentro da especialidade. Poderes que se impõe sutilmente e podem nos ultrapassar, se não estivermos unidos e atentos. A diligência de nossas ações requer que nos organizemos para interagir com eles. Nossas energias, por exemplo, têm sido absorvidas em atividades mal remuneradas, como a de plantões à distância, responsabilidade de uma prestação de serviço que nos cai sobre a cabeça, não havendo, na maioria das comunidades em que atuamos disposição de compartilhar conosco o ônus dessa situação. Mesmo algumas cooperativas médicas pagam coeficientes mais baixos para procedimentos cirúrgicos em relação aos clínicos. Pode-se imaginar o peso que constitui o auxílio de uma cirurgia, nessa situação. Assim tem sido nosso mercado de trabalho. Questiona-se o número de faculdades de medicina que surgem. É preciso que nos preocupemos da mesma forma com o exercício de uma especialidade tão complexa, num país que ainda não conseguiu solucionar da melhor forma políticas de saúde e usufruir os recursos materiais e principalmente humanos de que dispõe para isso. É nesse cenário que a SONESP tenta buscar dar apoio ao neurocirurgião. Entende-se que a complexidade dessa conjuntura exige várias frentes de ação e fóruns de debate, e princípios organizadores que se apliquem ao neurocirurgião formado e em formação. Nossa formação técnica e intelectual nunca poderá ser negligenciada em sua crescente necessidade, mas só poderemos aplicar o que aprendemos em meios onde haja condições propícias ao presente e ao futuro de nossa prática. Precisamos, portanto, contar com espírito solidário que só encontramos em grandes associações. Necessitamos de diversos suportes, seja nas questões tecnocráticas, nos desenlaces políticos que delineiam a prática da saúde em nosso país, na defesa do profissional em questões de conflito, enfim em tudo o que se relaciona com o exercício da nossa especialidade. Precisamos enfim e muito da nossa SONESP.

*Sylvio da Cunha Martins é neurocirurgião, atua em Piracicaba-SP,

membro da Comissão de Exercício Profissional da SONESP

e um dos Coordenadores das Caravanas da SONESP

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